Dr Walter Vostrau
Por que eu, como vice-prefeito, não consigo ajudar?
Publicado em: 26/09/2026
Walter Vosgrau chegou a Anápolis como médico. Foi pela medicina, especialmente pela cirurgia cardiovascular, que construiu uma relação de décadas com a cidade e com o atendimento pelo SUS.
Em 2021, quando as cirurgias cardíacas pelo sistema público estavam paralisadas, foi ao SIMEA denunciar o problema. Naquele momento, falava como médico diante de uma crise da saúde municipal.
Hoje, a posição é outra: Walter Vosgrau é o vice-prefeito de Anápolis e está dentro da estrutura que administra a cidade.
A mudança de lugar, porém, não mudou o tom.
Na entrevista ao SIMEA, Walter Vosgrau fala sobre as filas para cirurgias cardíacas, a redução de leitos, a falta de profissionais, os concursos públicos, o ISSA e, principalmente, sobre o espaço que afirma ter dentro da própria administração.
“POR QUE EU, COMO VICE-PREFEITO, NÃO CONSIGO AJUDAR?”
SIMEA: O senhor denunciou problemas nas cirurgias cardíacas em 2021. Cinco anos depois, o que mudou e o que ainda precisa ser resolvido?
WALTER VOSGRAU: Em 2021, eu fui retirado do Hospital Evangélico, onde comecei a trabalhar em 2000 e onde passei 22 anos operando pelo SUS. Fiquei um ano e seis meses sem operar lá.
Quando entrei como vice-prefeito, a intenção era voltar a operar pelo SUS dentro de Anápolis. O hospital me chamou novamente. Mas a divergência que existe entre o prefeito Márcio Corrêa e o vice-prefeito Walter Vosgrau, segundo ele, reacendeu a tentativa de me excluir novamente do SUS.
E hoje a situação da cirurgia cardíaca está muito semelhante à que estava quando eu parei, em 2023. Existem filas para operar os doentes, às vezes é preciso trazer cirurgião de fora quando não há vaga no hospital e houve redução dos leitos.
Hoje você consegue fazer duas ou três cirurgias no Hospital Evangélico. Eu fazia cinco. Há uma dificuldade para conseguir operar os pacientes.
“NÃO VEJO MUITA DIFERENÇA DE 2022 PARA O QUE ESTAMOS PASSANDO HOJE.”
SIMEA: O senhor está dentro da Prefeitura e, ao mesmo tempo, faz críticas públicas à saúde. O que precisa mudar com urgência?
WALTER VOSGRAU: Basicamente, nós precisamos ter gestão em saúde. Precisamos gerenciar os hospitais e os poucos leitos que temos na cidade.
Não vejo a Secretaria de Saúde nem o prefeito se preocuparem em aumentar o número de leitos para dar segurança à população.
Quando um médico tenta internar um paciente e não tem vaga, esse paciente precisa ficar em uma instituição que não foi programada para recebê-lo ou entrar em uma regulação que não consegue dar a resposta necessária.
O problema é que isso não é apenas uma questão administrativa. É o paciente que está esperando.
SIMEA: E por que o senhor, como vice-prefeito, não consegue atuar diretamente nessa área?
WALTER VOSGRAU: Porque o prefeito não pede ajuda. Ele entregou a saúde para o vereador e disse que eu teria que cuidar só da cirurgia cardíaca.
Até onde eu consegui levar a cirurgia cardíaca no ano passado, foi bem. Hoje eu estou saindo e estão tentando me tirar novamente do SUS.
“PORQUE O PREFEITO NÃO PEDE AJUDA.”
SIMEA: O senhor também aponta a falta de profissionais como um problema estrutural. Qual é o impacto de tantos anos sem concurso público na saúde?
WALTER VOSGRAU: O último concurso público efetivo para a área da saúde foi há 11 anos. Nesse período, muitos médicos e outros profissionais de saúde saíram do serviço.
Então não foi apenas uma questão de não contratar. Houve também uma perda da quantidade e da experiência dos profissionais que trabalhavam dentro do município.
Quando você fala em concurso público, você está falando em reposição de profissionais e em estrutura permanente para a saúde.
SIMEA: O senhor é contra a terceirização da saúde?
WALTER VOSGRAU: Não sou totalmente contra. A terceirização pode ser importante porque permite ao município trabalhar com menos amarras. O problema está na forma como isso é gerido.
O município precisa manter servidores públicos em determinadas áreas. Não é concurso para substituir toda a terceirização, nem para resolver todos os problemas da cidade. É para ter servidores em posições que precisam de uma estrutura permanente.
“OS MÉDICOS SÃO CONCURSADOS. É SÓ CONCURSAR.”
WALTER VOSGRAU: Eu não tenho segurança para falar de todos os detalhes técnicos dessa dívida. Isso eu precisaria ler.
O que eu posso dizer é que o ISSA está passando dificuldade porque não tem concurso público para trazer novos funcionários. As pessoas estão se aposentando e não está entrando gente nova no serviço público.
O número de ativos não aumenta enquanto cresce o número de aposentados. Você precisa sustentar uma massa que já trabalhou e que merece a aposentadoria com um número de pessoas que não é suficiente para fazer essa sustentação.
É por isso que o concurso público também entra nessa discussão.
WALTER VOSGRAU: O servidor público se sente desvalorizado. Se você não oferece condição adequada de trabalho e valorização, as pessoas vão embora.
A saúde não funciona só com prédio, equipamento ou contrato. Ela funciona com gente.
Você precisa ter profissionais qualificados e precisa fazer com que essas pessoas tenham vontade de permanecer no serviço público.
“A SAÚDE NÃO FUNCIONA SÓ COM PRÉDIO, EQUIPAMENTO OU CONTRATO. ELA FUNCIONA COM GENTE.”
WALTER VOSGRAU: Em 2024, eu andei com o Márcio pela cidade. Em todos os lugares em que ele falava, dizia que a saúde estava ruim e que o vice dele era médico para arrumar a saúde de Anápolis.
E hoje você não dá ouvido aos médicos.
Naquela época, houve apoio de médicos. Nós reunimos cerca de 20 médicos para discutir o que seria bom para a cidade e como eles poderiam ajudar a decidir os caminhos da saúde.
Depois disso, só um médico você escuta. E, por sinal, é vereador.
“VOCÊ NÃO DÁ OUVIDO AOS MÉDICOS.”
WALTER VOSGRAU: O SIMEA é o Sindicato dos Médicos da cidade de Anápolis e talvez a população não saiba que o sindicato, incansavelmente, tem tentado sentar com o Executivo e simplesmente não é recebido.
Essa é a valorização que nós médicos estamos tendo. E, quando a gente fala em médico, isso se estende aos outros profissionais de saúde também.
Por que o Executivo não recebe o SIMEA? Por que não dá pelo menos ouvido para tentar ajudar o sindicato e ajudar os médicos?
Porque acha que médico ele acha em qualquer momento. É estalar de dedos e ele traz quantos médicos quiser para a cidade.
Será? Eu acho que não.
“DÊ UM POUCO DE OUVIDO AO SINDICATO DOS MÉDICOS.”
WALTER VOSGRAU: Eu acho, senhor prefeito Márcio Corrêa, dê um pouco de ouvido ao sindicato dos médicos.
Porque, se não, arrisca o senhor ficar sem nenhum.