Profissionais do Hospital Alfredo Abrahão denunciam até quatro meses de salário atrasado em Anápolis


Publicado em: 05/09/2026
Profissionais do Hospital Alfredo Abrahão denunciam até quatro meses de salário atrasado em Anápolis
SIMEA apura denúncia de atraso salarial de até quatro meses no Hospital Alfredo Abrahão, em Anápolis. Entenda o "jogo de empurra" e a resposta do sindicato.

O Sindicato dos Médicos de Anápolis (SIMEA) recebeu uma nova denúncia de atraso no pagamento de profissionais que atuam no Hospital Municipal Alfredo Abrahão, contratados como pessoas jurídicas. Segundo relatos, o débito já soma três meses de salário, podendo chegar a quatro, considerando o prazo de 60 dias que a empresa contratante utiliza para efetuar os pagamentos.

"Só quitam um mês por vez"

Uma das pessoas atingidas pela situação, que presta serviço na unidade e falou ao SIMEA sob condição de anonimato, descreveu como funciona o atraso na prática:

 

"Nós estamos com três meses de salário atrasado. Eles pagam de um em um mês, se forem pagar essa semana, vai ser só o mês de maio, ponto. Eles não vão pagar maio e junho juntos, é só um mês que eles quitam."

 

A fonte também relatou o desgaste de atuar sob contrato de pessoa jurídica, modelo que, segundo ela, retira direitos trabalhistas básicos:

 

"É frustrante trabalhar dessa forma, porque eles tiram todos os nossos direitos e acham que a gente está achando isso o máximo. O próprio dono da empresa foi até minha sala dizer que a solução oferecida a nós foi colocar como CLT, e que ele tinha certeza que a gente não ia querer. Pra falar a verdade, era tudo que eu queria, pelo menos como CLT a gente recebe os benefícios todo dia 5."

Medo de represália trava denúncia pública

Segundo a fonte, o receio de perder o vínculo de trabalho é o principal motivo que impede profissionais de exporem a situação publicamente:

 

"Meu único medo de expor isso de forma pública é sofrer represália e acabar sendo demitida, porque esse é meu único emprego fixo."

 

Esse tipo de relato é recorrente entre os profissionais ouvidos pelo SIMEA. Dependência do vínculo, medo de retaliação e dificuldade de buscar outra colocação sem antes garantir estabilidade em outro lugar.

Um ciclo que se repete: o "jogo de empurra" por trás dos atrasos

Segundo apuração do SIMEA, a origem do problema remonta à implantação do modelo de Organizações Sociais (OS) na saúde pública de Anápolis, ainda na gestão do então prefeito Roberto Naves, modelo apresentado, à época, como solução para modernizar a gestão e encerrar contratos precários na rede municipal.

 

Na prática, o que se consolidou foi um processo recorrente de quarteirização dos serviços médicos, ou seja, a entidade gestora (a OS) subcontrata empresas intermediárias, que por sua vez são responsáveis por montar as escalas de plantão e contratar os médicos, na maioria das vezes, como pessoa jurídica.

 

Essa cadeia cria o que o sindicato descreve como um "jogo de empurra":

 

  • A Prefeitura afirma que os repasses contratuais para a OS estão em dia;
  • A OS gestora (no caso do Alfredo Abrahão, a FUNEV) sustenta que suas obrigações diretas com os profissionais contratados via CLT estão quitadas;
  • Mas os médicos que atuam na ponta, vinculados como PJ às empresas intermediárias, seguem enfrentando atrasos sistemáticos de pagamento.

 

Quando a situação com uma intermediadora se torna insustentável, o vínculo é rompido e uma nova pessoa jurídica assume o serviço, deixando para trás os débitos com os profissionais anteriores e reiniciando o ciclo. O resultado, segundo o SIMEA, é precarização contínua do trabalho médico e instabilidade no atendimento à população, sem que nenhum dos elos da cadeia assuma, de fato, a responsabilidade pelo problema. Esse cenário se soma a outro dado já levantado pelo sindicato: 

 

SIMEA vai levar o caso a órgãos de fiscalização

Para o presidente do SIMEA, Dr. Márcio Henrique, a situação expõe um padrão que a entidade não vai tratar como normal:

 

"O Sindicato dos Médicos de Anápolis representa e defende todos os médicos da cidade, independentemente da forma de contratação: CLT, concurso público ou prestação de serviços como PJ. A quarteirização dos serviços médicos em unidades geridas por Organizações Sociais tem criado um cenário preocupante. Médicos trabalham, cumprem suas escalas, atendem a população e, na hora de receber, começa o jogo de empurra entre Prefeitura, OS e empresas intermediárias. E quem trabalhou fica sem receber."

 

Segundo o presidente, o sindicato já está levando a situação a órgãos de fiscalização e controle:

 

"Estamos levando a situação aos órgãos competentes, incluindo Ministério Público do Trabalho, Ministério Público Estadual, CRM e Tribunal de Contas, para que as irregularidades sejam investigadas, as responsabilidades sejam apuradas e sejam adotadas medidas para garantir o pagamento dos médicos."

 

Márcio Henrique também associa diretamente a valorização do médico à qualidade da assistência prestada à população:

 

"Defender o médico também é defender a assistência à população. Quando profissionais deixam de receber pelo trabalho realizado, não é apenas a categoria que sofre. A continuidade dos serviços de saúde também fica em risco. Médico trabalhou. Médico tem que receber."

O que ainda precisa ser esclarecido

Mesmo com esse padrão identificado, alguns pontos seguem sem resposta pública nesta denúncia específica:

 

  • Qual empresa intermediária é responsável, atualmente, pelos pagamentos em atraso no Alfredo Abrahão?
  • Os repasses da Prefeitura à OS gestora estão, de fato, sendo integralmente executados no prazo?
  • Que medidas a OS gestora e a Prefeitura pretendem adotar para romper esse ciclo, e não apenas resolver o caso pontual?

Não é a primeira vez

Denúncias de atraso no Hospital Alfredo Abrahão se repetem desde 2023, com episódios registrados em 2023, 2024, 2025 e no início de 2026, este último com cerca de 30 médicos afetados e paralisação parcial dos serviços. A recorrência do problema, segundo o SIMEA, reforça a necessidade de uma resposta institucional definitiva, e não apenas soluções pontuais a cada nova denúncia.

 

O SIMEA reforça que as informações estão à disposição dos órgãos responsáveis e da imprensa para apuração, e que a identidade da fonte ouvida nesta reportagem foi preservada a pedido, dado o risco relatado de represália profissional.