Telemedicina na urgência

Uma tendência nacional que exige atenção e debate

Publicado em: 28/07/2026
Telemedicina na urgência
Nota técnica do Sindicato dos Médicos de Anápolis (SIMEA) sobre a expansão da telemedicina na rede pública de saúde: riscos assistenciais, o valor insubstituível do exame físico presencial e a defesa de uma implantação responsável e participativa em Anápolis.

O Sindicato dos Médicos de Anápolis (SIMEA) vem acompanhando, nos últimos meses, uma tendência que se espalha por administrações municipais de diferentes portes em todo o Brasil: a adoção da telemedicina como estratégia para reduzir custos e desafogar Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).

Iniciativas nesse sentido já foram anunciadas ou implantadas em 2026 em cidades como Goiânia (GO), Londrina (PR), Porto Alegre (RS), Indaiatuba (SP) e Santana de Parnaíba (SP), entre outras, todas com justificativa semelhante: direcionar o atendimento de casos classificados como leves para o canal remoto, aliviando a demanda presencial.

O SIMEA não se opõe à tecnologia. A telemedicina é um avanço real da medicina contemporânea e, quando aplicada dentro de critérios científicos, éticos e legais, amplia o acesso aos serviços de saúde, fortalece a atenção primária e oferece novas possibilidades de acompanhamento aos pacientes. A preocupação da entidade recai sobre o critério que vem orientando parte dessas iniciativas: quando a redução do custo por atendimento se torna o principal indicador de sucesso de uma política de saúde, cresce o risco de que decisões futuras sobre estrutura presencial (equipes, plantões, unidades) passem a ser guiadas, sobretudo, pelo orçamento.

O caso de Goiânia: o exemplo mais detalhado da tendência

Entre as iniciativas em curso, o projeto da Prefeitura de Goiânia é o que conta, até o momento, com informações mais detalhadas publicamente. Segundo declarações do secretário municipal de Saúde, Luiz Gaspar Pellizzer, publicadas em reportagem de 20 de julho de 2026, o novo serviço de telemedicina que a Prefeitura pretende contratar pode reduzir o custo médio por paciente de R$ 220 para cerca de R$ 66, caso o sistema atinja 30 mil atendimentos mensais. Segundo o secretário, o sistema também deve ajudar a reduzir filas e desafogar as UPAs da capital.

Ainda de acordo com as declarações do secretário, 10 mil atendimentos mensais representariam o ponto de equilíbrio financeiro do projeto, com custo equivalente ao do atendimento presencial, e a redução para cerca de R$ 100 por paciente ocorreria com 20 mil atendimentos mensais. O valor de R$ 66 corresponde, portanto, ao cenário mais otimista de adesão.

É relevante destacar que a própria Secretaria projeta, nesse mesmo cenário mais otimista, que apenas um terço dos cerca de 78 mil atendimentos mensais classificados como “casos verdes” (baixa complexidade) migraria para o canal remoto. Ou seja, mesmo na hipótese de maior êxito do projeto, a maior parte desses casos continuaria a demandar atendimento presencial nas UPAs, o que relativiza a expectativa de desafogamento significativo da rede presencial.

O SIMEA não atua no município de Goiânia e não lhe cabe fiscalizar a gestão local. O caso é aqui citado exclusivamente como exemplo público e bem documentado de um raciocínio que vem se repetindo em diferentes cidades do país, e que merece reflexão técnica por parte de toda a categoria médica, independentemente do município em que se manifeste.

Por que o critério importa

A consulta médica não constitui um procedimento padronizado ou uma etapa burocrática passível de ser integralmente automatizada. Cada paciente possui características próprias, sintomas que evoluem de maneira distinta e necessidades clínicas que exigem avaliação individualizada.

O que se perde sem o exame físico presencial

O diagnóstico médico não se apoia apenas no relato do paciente e na observação visual permitida por uma tela. Ele depende da integração de diferentes sentidos clínicos, treinados e exercidos justamente no contato presencial, e que uma consulta exclusivamente virtual não é capaz de reproduzir com segurança.

O toque (palpação) permite identificar massas, rigidez abdominal, sinais de irritação peritoneal, edemas, alterações de temperatura da pele, pulsos e pontos dolorosos específicos que orientam o diagnóstico diferencial. Uma dor abdominal relatada como leve pode, à palpação, revelar defesa muscular ou sinal de Blumberg positivo, achados que mudam completamente a conduta e que nenhuma descrição verbal do paciente reproduz com a mesma precisão.

A ausculta (com estetoscópio, sobre o tórax e o abdômen) permite identificar arritmias, sopros cardíacos, estertores pulmonares, sibilos e ruídos hidroaéreos alterados, sinais frequentemente imperceptíveis ao próprio paciente e que dependem de posicionamento técnico do aparelho e de treinamento auditivo específico.

O olfato, com frequência esquecido nessa discussão, também tem valor clínico reconhecido: odores característicos podem indicar cetoacidose diabética, insuficiência hepática, uremia, infecções necrosantes ou determinadas intoxicações. Nenhum desses sinais é perceptível por videochamada.

A inspeção presencial detalhada de pele, mucosas, coloração, perfusão capilar e estado geral também é limitada pela qualidade de imagem, iluminação e enquadramento de uma chamada de vídeo, condições que variam conforme o aparelho do paciente e a conexão de internet disponível no momento do atendimento.

Cada um desses elementos contribui para o raciocínio clínico e para a diferenciação entre quadros efetivamente leves e quadros graves que se apresentam, inicialmente, com sintomas discretos. Na maioria dos atendimentos de urgência e emergência, essa avaliação presencial completa continua sendo indispensável para um diagnóstico seguro. A literatura médica atual não demonstra equivalência segura entre a avaliação remota e o exame físico presencial na maior parte desses quadros.

A classificação de risco realizada na triagem organiza prioridades de atendimento, mas não substitui o exame físico nem estabelece, por si só, um diagnóstico. Sintomas aparentemente simples podem representar doenças graves em fase inicial ou condições clínicas de rápida evolução, e a ausência da avaliação presencial aumenta o risco de diagnósticos tardios em uma parcela desses casos.

A telemedicina possui papel comprovadamente relevante em retornos, acompanhamento de doenças crônicas, orientações específicas, segunda opinião e ampliação do acesso em localidades remotas. O que preocupa o SIMEA não é o uso da ferramenta em si, mas sua eventual adoção como porta de entrada única para quadros de urgência, tendo o custo como critério prioritário.

A barreira do acesso digital

Há ainda um aspecto assistencial que precisa ser considerado com a mesma seriedade: nem toda a população tem condições de utilizar, com segurança e autonomia, uma plataforma de telemedicina no momento em que mais precisa de atendimento.

Pacientes idosos, muitos deles com baixa familiaridade com aplicativos e videochamadas, podem ter dificuldade para realizar o cadastro, operar a câmera, manter a conexão estável ou mesmo compreender as orientações fornecidas remotamente, sobretudo em quadros que já cursam com certo grau de confusão mental, ansiedade ou limitação sensorial (visual ou auditiva) comuns nessa faixa etária. Essas mesmas dificuldades podem se repetir entre pessoas com baixo letramento digital, deficiência, ou sem experiência prévia com tecnologia, independentemente da idade.

A isso se soma a desigualdade de acesso à internet de qualidade e a dispositivos adequados, ainda significativa em parte da população atendida pelo SUS. Uma consulta virtual pressupõe conexão estável, aparelho com câmera funcional e um mínimo de ambiente privado e silencioso, condições que não estão disponíveis a todos os pacientes.

Nesses casos, exigir que o primeiro contato com o serviço de saúde ocorra necessariamente por via digital pode representar, na prática, uma barreira adicional de acesso, e não uma facilidade, para justamente a parcela da população que já enfrenta mais dificuldade para chegar até o sistema de saúde. Por isso o SIMEA defende que o canal presencial permaneça sempre disponível como opção plena, e não apenas como alternativa residual, para que a telemedicina amplie o acesso sem criar novas exclusões.

Um risco a prevenir, não um fato consumado

Até o momento, não há registro de fechamento de unidades presenciais, redução de equipes ou demissões vinculadas diretamente à implantação desses projetos de telemedicina nas cidades citadas. É importante que essa distinção fique clara: o SIMEA não afirma que esse desmonte já esteja ocorrendo, mas alerta para o risco de que, uma vez consolidada a lógica de redução de custo por atendimento como principal métrica de sucesso, decisões futuras sobre a estrutura presencial passem a seguir o mesmo critério.

Prevenir esse risco, com transparência e debate público, é mais eficaz e mais responsável do que reagir a um desmonte já consumado.

A posição do SIMEA para Anápolis

Em Anápolis, não há, até o momento, projeto em curso nesse sentido. O SIMEA reafirma sua posição preventiva: defende que qualquer eventual expansão da telemedicina na rede municipal de saúde seja construída com participação do Conselho Municipal de Saúde, da categoria médica e da sociedade civil, pautada por indicadores de qualidade assistencial (tempo para diagnóstico, taxa de reinternação, eventos adversos, satisfação dos pacientes) e não apenas por indicadores financeiros.

A entidade defende ainda que nenhuma eventual implantação de telemedicina resulte em redução de equipes, fechamento de unidades presenciais ou restrição da autonomia médica para converter, a qualquer momento, um atendimento virtual em presencial quando houver indicação clínica.

O compromisso da medicina com a sociedade

O SIMEA reafirma seu apoio à inovação tecnológica, à transformação digital da saúde e ao uso ético da telemedicina.

A incorporação de novas tecnologias deve ampliar direitos, melhorar a qualidade da assistência e fortalecer o SUS, nunca servir como instrumento de precarização do atendimento ou de substituição da relação médico-paciente quando esta for clinicamente necessária.

A tecnologia deve servir à medicina. A medicina deve servir ao paciente.

Cinco princípios para uma telemedicina responsável em Anápolis

Diante da tendência observada em outras cidades do país, o SIMEA defende que, caso a telemedicina venha a ser expandida na rede municipal de saúde de Anápolis, sua implantação siga cinco princípios:

  Preservação da Rede Presencial: nenhum serviço ou posto presencial deve ter seu atendimento reduzido ou ser fechado sob a justificativa da implantação da telemedicina.

  Autonomia de Conversão Clínica: o médico deve ter garantida a autonomia para converter imediatamente uma consulta virtual em atendimento presencial sempre que houver indicação clínica.

  Ampliação do Acesso, Não Restrição de Porta: a telemedicina deve expandir o acesso, especialmente no acompanhamento de crônicos, retornos e regiões remotas, e não atuar como barreira ou substituta única na urgência.

  Métricas Centradas na Qualidade Assistencial: a avaliação do serviço deve ser pautada por indicadores de saúde (tempo para diagnóstico, taxa de reinternação, eventos adversos e satisfação do paciente), e não apenas por indicadores financeiros.

  Controle Social e Gestão Participativa: toda política de telessaúde deve ser debatida e construída com a participação do Conselho Municipal de Saúde, das entidades médicas e da sociedade civil.

O SIMEA reconhece esses princípios como boa prática para qualquer política pública de telessaúde no Brasil e os apresenta aqui como compromisso que espera ver adotado em Anápolis, caso e quando o tema avance na cidade.

Encaminhamentos

O SIMEA acompanhará a evolução dessa tendência em âmbito nacional e manterá diálogo com o Conselho Municipal de Saúde de Anápolis, reafirmando sua disposição para contribuir tecnicamente com qualquer projeto de telessaúde que venha a ser proposto para a rede municipal, sempre pautado pela segurança do paciente e pela transparência dos critérios adotados.

Anápolis (GO), 28 julho de 2026.

SINDICATO DOS MÉDICOS DE ANÁPOLIS – SIMEA

Fontes: Mais Goiás, “Telemedicina pode reduzir custo por paciente de R$ 220 para R$ 66 em Goiânia, diz secretário”, 20/07/2026; Blog Londrina, 17/06/2026; Correio Paulista, 21/07/2026; Prefeitura de Indaiatuba, 24/06/2026; Prefeitura de Porto Alegre, junho de 2026.